Selo Tradução Humana
Quem, ou O QUE, traduziu o livro que você está lendo?
O Coletivo Quem traduziu e todas as pessoas que atuam nas mais diversas frentes do mercado editorial se deparam com a questão da segurança e da ética do trabalho com o texto diante do uso indiscriminado de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAG).
Muitas de nós trabalham também com preparação de texto e têm recebido material que aparenta ter sido traduzido por IA generativa. Além disso, é notável um movimento de editoras que solicitam às pessoas colaboradoras, por vezes em cláusulas contratuais, que não utilizem IAG. Por outro lado, já estão chegando ao mercado, no Brasil e em outros países, obras traduzidas por essas ferramentas, muitas vezes sem a ciência ou autorização de quem escreveu o livro. Diante desse cenário, acreditamos que é importante nos organizarmos para garantir que essas versões geradas automaticamente não sejam apresentadas ao público leitor como algo equivalente à tradução criada através do esforço cuidadoso, da sensibilidade e da reflexão de mentes humanas.
Isso não parte apenas de uma defesa da nossa posição no mercado, como pessoas que traduzem, mas também por acreditarmos que a disseminação e o consumo indiscriminados de textos gerados por IAG trazem consequências reais para a pluralidade do nosso mercado editorial, nossa produção literária e a experiência de leitura.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a tradução feita por máquinas se baseia na apropriação não autorizada e não remunerada da produção intelectual de quem traduziu outros textos antes daquele, de quem de fato criou outros textos antes daquele. A
Inteligência Artificial se alimenta de Inteligência Humana. Porém, nesse processo, essa ferramenta desumaniza a produção artística, descaracterizando o trabalho de pessoas que produziram obras significativas a partir de sua singularidade, sua biografia, seu contexto estético, seu critério editorial.
A IAG também pode ser insensível a contextos discursivos de grupos minorizados, como pessoas negras (pretas e pardas), mulheres, comunidade LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência (PCDs), povos indígenas e quilombolas. Ela é programada com base em padrões hegemônicos que refletem uma visão de mundo limitada, o que, por sua vez, atua no sentido de reforçar uma estrutura de poder profundamente ligada à linguagem, à maneira como fenômenos sociais e culturais são nomeados por ela e, por consequência, compreendidos por quem lê. A IAG tira de quem lê a possibilidade de se deparar com outras subjetividades, bem como as experiências de fruição e reflexão que surgem desse encontro.
O resultado dessa apropriação da inteligência humana é uma linguagem homogeneizada, que pode apresentar uma grande variedade de registros, mas limitada apenas a copiar o que já foi feito e processado por ela. Não existe sujeito por trás da IA. Por mais que ferramentas e agentes de IA se expressem em primeira pessoa, não há sentimento, não há raciocínio, não há prazer no exercício com o texto. Na IAG não existe autoria.
Nós defendemos a tradução editorial como uma atividade essencialmente humana, artística e autoral, e acreditamos que quem lê tem direito a isso.
Do mesmo modo que se discute a indústria de alimentos ultraprocessados e seu impacto danoso na saúde física da população, também é fundamental que se discutam as práticas mercadológicas na cadeia de produção editorial e como o consumo desses textos, para além de uma questão de gosto, impacta a saúde intelectual das pessoas que leem.
A chamada “inteligência artificial” mobiliza muitos recursos e interesses econômicos e políticos, e, por isso, o discurso que a defende e retrata como uma força inevitável é propagado de forma tão influente. Os aspectos mercadológicos também têm um peso importante, pois se a geração de textos por IAG for vista como um substituto válido para o trabalho humano da tradução, em detrimento dos prejuízos mencionados acima, há uma grande redução de custo no processo editorial, e sabemos que em muitos casos o dinheiro pode falar mais alto do que a qualidade do produto final.
Para resistir a essa degradação do mercado editorial e da literatura, é necessária uma construção coletiva, reunindo quem edita e também quem escreve, traduz e lê. Como um passo nessa direção, nós, do coletivo Quem traduziu, em parceria com a Abrates, estamos trazendo para o Brasil o selo de tradução humana. Criado pela ACE Traductores (Associação de Tradutores Editoriais da Espanha)*, o selo defende que quem lê tem direito à transparência quanto ao uso de IA gerativa na tradução de livros.
O selo está disponível para download gratuito aqui (link). Convidamos as editoras que compreendem o valor da tradução humana a utilizá-lo em seus livros e em seu material de comunicação. E convidamos quem lê e escreve a compartilhar essa iniciativa em seus perfis nas redes sociais e, ao ler uma obra estrangeira, buscar saber não o que, mas quem traduziu o que você está lendo.
Viva a tradução humana!
Coletivo Quem traduziu
* Designer do Selo Tradução Humana (Espanha e Brasil): Clara Juan https://clarajuan.com/